POLÍTICA

Delator diz que presidente da câmara pediu 5 milhões de propina

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O consultor Júlio Camargo afirmou à Justiça Federal nesta quinta-feira (16) que foi pressionado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a pagar US$ 10 milhões em propinas referentes a dois contratos de US$ 1,2 bilhão de navios-sonda, assinados pela Petrobras entre 2006 e 2007. A informação foi confirmada ao GLOBO por três pessoas presentes no depoimento e consta em vídeos da oitiva gravados no âmbito da Operação Lava-Jato. Segundo Camargo, Cunha pediu US$ 5 milhões pessoalmente a ele.

 

Ao GLOBO, Cunha negou a acusação e afirmou que o delator é um “mentiroso”. O peemedebista também divulgou uma nota em que desafia o delator a provar as acusações. "Ele (Júlio Camargo) é mentiroso. Um número enorme de vezes dele negando qualquer relação comigo e agora (ele) passa a dizer isso. Obviamente, ele foi pressionado a esse tipo de depoimento. É ele que tem que provar. A mim, eu nunca tive conversa dessa natureza, não tenho conhecimento disso. É mentira", disse Eduardo Cunha.

Um dos primeiros delatores da Lava-Jato, Júlio Camargo trabalhou como consultor das empreiteiras Toyo Setal e Camargo Corrêa. Nesta semana, ele voltou a ser interrogado pelo juiz Sérgio Moro e fez revelações que, embora não constassem de seus primeiros depoimentos no Paraná, foram feitas nos últimos meses à Procuradoria Geral da República (PGR), em Brasília.

Segundo Camargo, em 2011, quando representava a empresa Samsung, foi surpreendido por dois requerimentos apresentados na comissão de fiscalização da Câmara dos Deputados para investigar a atuação da empresa em seus contratos de construção de sondas. Segundo ele, por intermédio de ex-diretor da Petrobras, ele teve um encontro com o então ministro de Minas e Energia Edison Lobão na base aérea de Santos Dumont onde mostrou o requerimento:

"Edison Lobão viu o documento e falou: 'Isso é coisa do Eduardo (Cunha)'. Ele pegou seu celular e ligou pro deputado Eduardo Cunha na minha frente. Ele disse: 'Eduardo, estou aqui com o Júlio Camargo. Você está louco?' Não sei o que o deputado respondeu, mas disse: “Você me procure amanhã cedo no meu gabinete em Brasília que eu quero conversar com você”, disse o delator.

Segundo ele, Lobão prometeu apressar os procedimentos. Camargo tentou contato com Fernando Soares, que disse que Cunha “queria receber”. "Ele (Fernando) me disse: 'Júlio, realmente temos um problema. Estou sendo pressionado violentamente inclusive pelo deputado Eduardo Cunha'. Eu falei: 'Estou à disposição para falar com o deputado Eduardo Cunha, explicar a ele o que está acontecendo'. Mas o Fernando me disse. 'Júlio, ele não quer falar com você. Ele quer receber'”.

Na sequência, ele conseguiu encontro com o próprio Eduardo Cunha. "Marcamos num domingo final de tarde, no Rio de Janeiro, um encontro num edifício comercial no Leblon e tivemos o encontro, o deputado Eduardo Cunha, o Fernando Soares e eu. Eu fui bastante apreensivo. O deputado Eduardo Cunha é conhecido como uma pessoa agressiva, mas comigo foi até bastante amistoso dizendo que ele não tinha nada pessoal contra mim, mas que havia um débito meu com o Fernando no qual ele (Cunha) era merecedor de US$ 5 milhões e que isso estava atrapalhando porque estava em véspera de campanha, se não em engano campanha municipal, e que ele tinha uma série de compromissos e eu vinha alongando esse pagamento há bastante tempo e ele já não tinha mais condições de aguardar", relata o delator.

Dívida de US$ 10 milhões

Segundo ele, a dívida total de Júlio Camargo com Fernando Soares e Eduardo Cunha somava cerca de US$ 10 milhões. Para quitar a dívida, Camargo recorreu aos serviços do operador Alberto Youssef, que conhecia de longa data.

"O deputado Eduardo Cunha não aceitou que eu pagasse apenas a parte dele. Ele me disse: 'Olha, Júlio, eu não aceito uma negociação para pagar só da minha parte. Você pode até pagar o Fernando mais dilatado. O meu eu preciso mais rapidamente. Mas eu faço questão de você incluir no acordo o que ainda falta você pagar ao Fernando. E aí chegou entre US$ 8 e 10 milhões de dólares que eu paguei através de depósitos ao Alberto no exterior, paguei através de operações com a GFD (empresa registrada em nome de Alberto Youssef) e fiz pagamentos diretos ao Sr. Fernando Soares. Daí liquidei os pagamentos", afirma Camargo.

Um dos advogados presentes na audiência perguntou a Camargo quem foram os beneficiários dessa propina. "Eu não sabia que ele (Fernando Soares) tinha um sócio oculto, que era o deputado Eduardo Cunha, que também ganhou".

Durante o depoimento, Júlio Camargo alegou que não fez as acusações contra Cunha anteriormente no processo que corre na Justiça Federal de Curitiba por receio do presidente da Câmara e por ter sido alertado, ao fechar o seu acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal no Paraná, que acusações contra políticos deveriam ser feitas para a PGR, por causa do foro privilegiado. Camargo citou temer o poder de Eduardo Cunha. O delator também relatou receio de retaliações nos negócios e nas empresas que representa.

"Estamos falando de uma pessoa que, segundo ele, tinha o comando de 260 deputados no Congresso. Uma pessoa de alto poder de influência. O maior receio é com a família. Quem age dessa maneira perfeitamente pode agir contra terceiros".

O clima da audiência foi tenso em alguns momentos. Em determinado momento, o advogado Nélio Machado se exaltou, disse ter ficado “perplexo” com as declarações de Camargo e perguntou porque ele havia omitido esses fatos até então. O delator também subiu o tom, dizendo que não admitiria ser chamado de mentiroso. O juiz Moro colocou fim ao bate-boca pedindo “urbanidade” aos presentes.

O advogado de Júlio Camargo pediu decretação de sigilo sobre o interrogatório do seu cliente. mas Moro ainda não se pronunciou sobre isso.

Fonte - MSN

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